Peça impressa com três citações em marca-texto ao lado de um navegador aberto na página de um tribunal.

Em parte, e cada vez mais. Desde 11 de agosto de 2026, a Anthropic marca todo texto gerado pelo Claude com uma marca d'água imperceptível que acompanha o texto quando ele é copiado e colado, e que pode sobreviver a alguma edição. A própria empresa registra o limite disso ao afirmar que uma marca detectada é um sinal e não prova conclusiva, e que a ausência de marca não significa que o conteúdo não tenha sido gerado por IA. Detectores genéricos de estilo entregam um percentual e não publicam taxa de erro auditável. Só que essa não é a pergunta que custa dinheiro.

Nenhuma decisão brasileira de 2026 sancionou o ato de usar a ferramenta. O que foi sancionado foi a citação falsa que chegou ao protocolo sem conferência. Enquanto o advogado se preocupa em não ser detectado, o que está sendo detectado, e com facilidade, é o precedente que não existe.

O que a marca d'água do Claude faz, e o que a Anthropic diz que ela não faz

O anúncio é de 11 de agosto de 2026, noticiado pelo veículo americano TechCrunch, e a documentação oficial está na página de suporte da própria Anthropic sobre como o Claude marca conteúdo gerado.

O mecanismo tem duas partes. Para texto, uma marca d'água embutida, imperceptível na leitura, que viaja junto quando o trecho é copiado e colado. Para arquivos em SVG, PNG e JPG, metadados de proveniência assinados no padrão C2PA, verificáveis em uma ferramenta pública gratuita.

Os limites estão declarados no mesmo documento, e são o que mais importa para o leitor jurídico. Uma marca detectada indica que o conteúdo passou pelo Claude, sem ser conclusiva, e a ausência de marca não prova que o texto seja humano. A marcação pode desaparecer quando o texto é bastante editado, parafraseado, traduzido ou misturado a outra escrita, e trechos muito curtos podem não carregar sinal confiável. Em arquivos, o metadado se perde numa conversão de formato ou numa captura de tela. Há ainda a restrição de acesso, porque a verificação de marca d'água em texto é liberada apenas a organizações elegíveis, como reguladores, autoridades, imprensa, checadores, pesquisadores e educadores.

Junte as duas pontas e o cenário fica claro. Uma peça que passou por revisão humana de verdade, com reescrita e ajuste de estilo, provavelmente já perdeu a marca. A peça que mantém a marca intacta é a que ninguém revisou, o que diz mais sobre o processo de trabalho do que sobre a ferramenta.

Onde a verificação tem número, e por que 17% incomoda quem vende ferramenta jurídica

Uma reportagem de 28 de agosto de 2026 do veículo americano The Daily Record mapeou o mercado de verificadores de citação, entre eles CiteSentinel, Clearbrief e CiteCheck AI, e trouxe o dado que sustenta este post. Segundo pesquisa de Stanford citada na reportagem, ferramentas gerais alucinam em até 88% das consultas jurídicas específicas, e ferramentas jurídicas especializadas erram em cerca de 17%.

Dezessete por cento é uma citação problemática a cada seis. Esse é o número da categoria de produto em que o PromptJus está, e eu prefiro escrever isso aqui do que deixar o leitor descobrir sozinho depois de assinar alguma coisa. Ferramenta jurídica especializada reduz o erro em uma ordem de grandeza e não o zera, e qualquer fornecedor que prometa zero está vendendo o que não tem.

A reportagem faz ainda uma distinção que vale mais que os dois percentuais. Existe a citação totalmente inventada, que morre na primeira busca, e existe a citação real com a tese, o número ou o órgão julgador alterados. A segunda é a perigosa, porque o processo existe, a busca retorna resultado, e a conferência superficial dá o caso por confirmado. Foi exatamente esse tipo de erro que apareceu no habeas corpus analisado pelo STJ em maio de 2026, com falhas de relatoria, de órgão julgador e de tipo de decisão.

O OpenDetector da OAB e o que ele cobre

Em 13 de julho de 2026, a OAB lançou o OpenDetector com a Forlex, dentro de um programa nacional de soluções tecnológicas para a advocacia. É um verificador gratuito de citações jurídicas, o que coloca a checagem de referência ao alcance de quem não vai contratar produto para isso.

Não testei a ferramenta, então não afirmo nada sobre a cobertura dela além do que o anúncio institucional diz. Antes de adotá-la como etapa obrigatória do escritório, vale rodar um lote de citações conhecidas, incluindo algumas com erro proposital no relator e na data, para descobrir onde a ferramenta pega e onde ela deixa passar. Esse teste leva uma tarde e vale mais do que qualquer descrição de funcionalidade.

O que cada camada de verificação responde de verdade

  • Marca d'água de origem, como a do
Claude. O que ela responde: se aquele texto passou pelo modelo O que ela não responde: se a informação está correta Peso numa impugnação: baixo, e a verificação em texto tem acesso restrito
  • Detector genérico de estilo.
O que ela responde: uma estimativa de probabilidade O que ela não responde: qualquer coisa com segurança Peso numa impugnação: nenhum, enquanto não publicarem taxa de erro auditável
  • Verificador de citação, como OpenDetector e
CiteSentinel. O que ela responde: se a referência existe e bate com a base consultada O que ela não responde: se a tese atribuída está mesmo no voto Peso numa impugnação: médio, e depende da base
  • Conferência humana na fonte primária.
O que ela responde: existência, órgão, relator, data, tese e vigência O que ela não responde: erro de estratégia ou de leitura de prova Peso numa impugnação: alto, e é a única que produz prova de diligência
  • Registro de quem conferiu e quando.
O que ela responde: o que foi verificado, por quem, em que data O que ela não responde: o acerto do conteúdo da peça Peso numa impugnação: alto, porque é o que se junta aos autos A tabela também explica por que a pergunta da detecção é mal colocada. As duas linhas com peso alto não têm nada a ver com descobrir quem escreveu o texto. Elas tratam de saber se o que está escrito é verdade e de conseguir demonstrar que alguém checou.

A pergunta que substitui a da detecção

Não existe norma brasileira que proíba o advogado de usar inteligência artificial na produção de peça. O que existe é o dever de conferir o que se assina, que é anterior à IA e vale igual para pesquisa feita em agregador, em livro ou em modelo de linguagem. As sanções de 2026 saíram dos artigos 80 e 81 do Código de Processo Civil, que tratam de litigância de má-fé desde 2015. O que separa o erro honesto da má-fé é o dolo, e a leitura completa desses casos está em quando o tribunal multou advogado por citação inventada.

Quando o juízo desconfia, ele não roda detector de estilo. Ele abre o número do processo citado. É por isso que o protocolo que interessa é o de conferência, com os passos reunidos em como verificar jurisprudência gerada por IA antes de protocolar.

Vale acrescentar um ponto que quase ninguém faz. A mesma IA que gerou a peça serve para atacá-la antes do protocolo, com prompts que pedem contradição, tese frágil e citação sem lastro. É o uso descrito em prompts de crítica que melhoram a sua própria peça, e ele resolve um problema real, ao contrário de tentar apagar rastro de autoria.

O que este texto não resolve

Este post trata de detecção de origem e de verificação de citação. Ele não avalia detectores específicos, porque não os testei, e não afirma o que o OpenDetector cobre além do anúncio institucional. Ele também não trata de plágio, que é outro problema com outra régua, nem de uso de IA em prova ou concurso, onde a regra é do edital e não do processo. Se você já foi intimado a se manifestar sobre uma citação questionada, isso é situação processual concreta, com prazo próprio, e pede avaliação individual.

O que fazer na segunda de manhã

Pegue a última peça que o escritório protocolou com apoio de IA e escolha três citações no acaso. Confira as três na fonte primária, checando órgão julgador, relator, data e se a tese atribuída aparece mesmo no voto. Se uma das três falhar, a taxa de erro do seu fluxo está pior que os 17% da pesquisa de Stanford, e o que falta é a etapa de conferência entre a geração e o protocolo.

No PromptJus, a citação nasce marcada como não conferida e o registro de quem abriu a fonte fica junto da peça. Nenhuma ferramenta elimina alucinação, incluindo a nossa, e toda saída precisa ser lida, conferida e validada por quem assina, como está descrito na página sobre as ferramentas do produto. O que muda é que a conferência deixa de depender de alguém lembrar dela com o prazo fechando. Se esse é o buraco do seu fluxo hoje, veja os planos.

O risco de não fechar esse buraco também deixou de ser só processual. As apólices de responsabilidade profissional começaram a ganhar cláusulas específicas sobre inteligência artificial, e o que perguntar à corretora antes da renovação é uma conversa para esta semana.